A Face Da Guerra – Martha Gellhorn

Esse livro será a minha próxima aquisição. Já tinha lido a respeito dele, mas depois que a nota do jornal Folha do Brasil, a vontade de comprá-lo só aumentou .

Luiz Fernando Manso*

O livro A face da guerra, de Martha Gellhorn – mais recente título da coleção Jornalismo de Guerra, da editora Objetiva – é, provavelmente, o único em que o autor cobriu tantos conflitos diferentes por tanto tempo. Durante quase 60 anos (da década de 1930 à de 1990), Martha, americana e judia, esteve na Guerra Civil Espanhola, na Segunda Guerra Mundial e em vários outros fronts – inclusive na China em sua luta desesperada contra o Japão, no Vietnã, em Java, na América Central. Enfim, nos conflitos mais importantes do século passado e também em alguns que mereceram apenas notas de rodapé na imprensa e na História. Mas tão importante quanto ter presenciado tantas batalhas, bombardeios e massacres, é o fato de Martha ter mantido a coerência ao longo dessas seis décadas.

Quem preferir começar a ler o livro pela página 21, que trata da guerra na Espanha, ou ir direto à 404, na conclusão da autora escrita em 1988, encontrará o mesmo olhar, por vezes duro e crítico, ou profundamente humano que ela dedica aos envolvidos nos diversos conflitos. Martha, que era pacifista e se tornou antifacista assim que os nazistas assumiram o poder na Alemanha, em 1933, apenas acrescentou novos conflitos ao livro escrito em 1959. Não reescreveu absolutamente nada. Não precisava.

A face da guerra continua atual, mesmo que seu último capítulo tenha sido escrito há mais de 20 anos. Logo no início, a autora diz que a Segunda Guerra superou sua capacidade de expressar o horror. Isso fica claro em diversos textos, sendo o que aborda Dachau o grande exemplo: “Que outro lugar seria melhor para escutar a notícia da rendição alemã? Dachau é sem dúvida o melhor, foi por isso que lutamos, para que lugares como esse nunca mais existam”.

Em outros artigos, Martha consegue captar o sofrimento e a angústia dos soldados poloneses que lutavam na Itália, os quais, segundo ela, não sabiam o que acontecia na Normandia ou no Japão: só estavam preocupados com os combates, 10Km à frente e com o avanço russo sobre a Polônia. Muitos deles tiveram seus parentes mortos por nazistas e/ou comunistas anos antes, quando a Alemanha de Hitler e a União Soviética de Stalin dividiram o país ao meio, espalhando o terror. Não é preciso dizer o que aconteceu com a maioria deles quando voltaram para a Polônia comunista.

Ainda antes do início dos combates na Espanha, a jornalista já sabia que vários jovens nazistas em formação na Alemanha tinham, juntos, um cérebro equivalente ao de um papagaio: “Nós estávamos do lado certo, sabíamos que os nazistas tinham que ser parados ali”.

Depois, quando a guerra já estava perdida para os alemães, Martha se indignava com a cara de pau daqueles que sempre culpavam o vizinho da outra cidade pelo nazismo. Parecia que nenhum alemão havia apoiado Hitler durante os seis anos de conflito.

Mas A face da guerra não é um livro (apenas) sobre a Segunda Guerra Mundial. Logo depois, em 1946, ela estava em Java, na Indonésia, que já estava se tornando o país do ditador Sukarno. Já então criticava o hábito americano de apoiar esse tipo de gente, ditadores que eles podiam comprar. Muitos anos mais tarde, cobrindo os conflitos na América Central – Nicarágua e El Salvador – ela pôde testemunhar o resultado dessa política de sucessivos governos americanos. Reagan, a quem se atribui a vitória na Guerra Fria, armou, treinou, financiou e exaltou governos e grupos que torturaram, mataram, estupraram e massacraram milhões de pessoas por décadas.

É nisso que A face da guerra difere de outros títulos da coleção, como Um escritor na guerra, de Vasily Grossman – que acompanhou o Exército Vermelho de 1941 a 1945 – ou Diário de Guadalcanal, de Richards Tregaskis. Embora diferentes entre si, esses dois livros acompanharam um campanha, no caso do primeiro, ou apenas uma batalha. Em vez de se tornar repetitivo, os relatos de Martha Gellhorn ganham mais vida, mais contundência, ao mostrar o horror de vários conflitos diferentes.

Se uma crítica pode ser feita a Martha, é a sua fé de que no século 21 as coisas mudem para melhor. Não mudaram ainda, como não mudaram após a Segunda Guerra Mundial, que seria “a guerra para acabar com todas as guerras”, como sugeriu o presidente americano Woodrow Wilson. É impressionante que nos últimos 30 anos do século passado guerras – civis, entre países vizinhos ou não, pela independência – tenham acontecido em todos os continentes. Não é preciso ser historiador, basta pegar um mapa da África e digitar o nome dos países no Google para saber que todos, todos os países daquele continente, estiveram envolvidos em algum tipo de conflito.

Martha, que morreu em 1998, aos 89 anos, escreve corretamente que ninguém ganhou a Guerra Fria, como diz a propaganda. Ela – que era uma moça bonita, inteligente, foi casada com Ernest Hemingway, outro célebre correspondente de guerra, amiga do fotógrafo Robert Kappa, com quem cobriu o conflito na Espanha – nunca gostou de guerras. Seu livro é um testemunho disso. Mas passou a vida entre uma guerra e outra, assim como nós. Curiosamente, uma das últimas viagens de Martha para acompanhar um “conflito”, foi ao Brasil, onde cobriu os massacres de meninos de rua, quando tinha 85 anos, em 1993. Ela planejava voltar.

* Jornal Folha do Brasil – 14/03/2009

Veja mais detalhes e leia o primeiro capítulo neste link.


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